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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Uma vida de luxo - Danuza Leão







É impossível viver sem ele; só que existem luxos e luxos.

Para a milionária Barbara Hutton, a herdeira mais rica dos Estados Unidos, um deles foi mandar fabricar um Rolls-Royce em tamanho pequeno para dar de presente a seu filho, então com 9 anos.
E, para motorista do carro, contratou um anão.
Será que ter dinheiro demais pira a cabeça das pessoas, elas nunca ficam satisfeitas?
Detalhe: depois de nove casamentos, Barbara Hutton morreu pobre.

Para não ser radical, admito que algum dinheiro sempre ajuda, mas não é tão fundamental assim.
Então vou falar de algumas coisas que são, para mim, o luxo dos luxos e que não custam quase nada.
Acordar num domingo de manhã sabendo que a faxineira não vem, que todos os eletrodomésticos da casa estão funcionando e que, com a graça de Deus, o telefone não vai tocar.

O dia será silencioso, e o único movimento na casa será o dos gatinhos (agora tenho mais dois)
correndo e se enrolando uns nos outros sem emitir um só som.
Um domingo assim é um luxo total.
Outra preciosidade é, depois de passar 20 dias sem comer carboidrato, nem unzinho, pegar no armário aquela calça de 15 anos atrás, quando você era uma sílfide, e o zíper fechar.
A felicidade é maior do que se ganhasse um brilhante.

E quando você chega da rua, com um calor de matar, pega um copo (bonito, de preferência) e toma uma água bem gelada, não é um luxo?
Se puser dentro de uma jarra (bonita, de preferência) cascas de limão-siciliano e deixar na geladeira, vai ser a água mais fresquinha e perfumada que já tomou.
Não é um superluxo?

Aí você se refresca num chuveiro e depois vai para o quarto, liga o ar-condicionado
e se deita numa cama com lençóis brancos limpinhos, cheirosos. Tem luxo maior?

Dar um mergulho num mar azul, sem ondas, sem se preocupar com os cabelos, e depois tomar uma água de coco?
E então comer um peixe grelhado, temperado apenas com sal, limão e um fio de azeite.

Depois de passar por várias paixões sofridas e alguns casamentos errados, não estar apaixonada é um luxo.

Uma sexta-feira, às 7 da noite, você está sozinha, sem a angústia de esperar aquele telefonema.
Sente-se independente e decide sair.
Enquanto pinta o olho, começa a pensar em que restaurante vai sem ninguém para dizer que prefere outro.
Quando chega lá, toma dois drinques sabendo que é uma mulher livre e resolvida, que não precisa de ninguém para uma coisa tão banal, que é jantar fora. Não é um luxo?

Bom demais é ter resistido à compra daquele vestido lindo, que fez você ficar duas noites sem dormir pensando ?compro ou não compro?,
e passar pela loja uma semana depois, ver que ele está em liquidação, pela metade do preço, e que você nem o quer mais.

E quando chega de uma reunião de trabalho com a cabeça quente, se sentindo um lixo, e a empregada fez aquela sobremesa que você adora, não é como se o Universo estivesse todo a seu favor?

E o resultado do exame avisando que sua saúde está ótima?
E seu filho que telefona para dizer que está com saudades?
Percebo que misturei muitos luxos com momentos de felicidade; e existe luxo maior do que ser feliz?

Texto de Danuza Leão -78 anos

domingo, 1 de agosto de 2010

MÃE IDEAL - Danuza Leão





Ah, ser mãe é difícil;

não existe filho que não tenha dito um dia - ou pelo menos pensado
- "não agüento minha mãe", e o pior: com toda razão.

 Há coisas a ser evitadas para que eles nos odeiem o menos possível. Toda mãe tem vontade de telefonar para o filho pelo menos duas vezes por dia.


Meu conselho: não telefone. Deixe seu filho em paz, mas esteja sempre à disposição, a
qualquer hora do dia ou da noite, para ouvi-lo reclamar do trabalho, da mulher, do filho que ele descobriu fumando um cigarro ou coisas do gênero.

Quando ele disser que vai viajar, não pergunte jamais - jamais - o dia em que voltará. Se não resistiu e perguntou, não telefone para ele no dia da chegada, antes de ele ligar, ou corre o risco de ser vítima de alguma atrocidade, e todas somos; ou não?

A mãe ideal é aquela que não dá palpite sobre nada, a não ser quando consultada e,
mesmo assim, tomando o maior cuidado com o que vai falar. Se ele se queixar da mulher, não aproveite para dizer tudo que está atravessado na sua garganta desde o dia em que ele te abandonou por ela.


Ouça tudo, mas fique muda, porque eles vão fazer as pazes e vai sobrar para quem?

Não tente seduzir seu filho com propostas do tipo: "Domingo vou fazer aquele cozido que você adora, quer vir almoçar?" Se quiser ser mesmo uma mãe maravilhosa, mande levar na casa dele aquele bolo de laranja feito no tabuleiro, com cobertura de açúcar e limão, mas
não telefone para saber se ele gostou. Quando ele ligar - se ligar - para dizer que adorou, não peça o tabuleiro de volta; esse, nunca mais.



Quer saber o que é uma mãe confortável? É aquela que tem vida própria: ou joga pôquer e ninguém vai tirá-la da rodinha de sábado, ou tem um namorado que não vai deixar, nem morta, para cuidar dos netos, ou tem um gato que não pode ficar sozinho. É claro que ele vai reclamar que não conta com você para nada; vai ser acusada de ser egoísta, mas, se pudesse escolher entre uma mãe que sufoca e a que vive e deixa viver, sabe qual ia preferir? Pois é isso mesmo.

Goste dele mais do que tudo neste mundo, mas não diga nada. E não fique triste ao constatar que ele se importa mais com seus próprios filhos do que com você: a vida é assim, e o amor de cima para baixo - de mãe para filho - é muito maior do que aquele de baixo para cima - de filho para mãe. Ele também vai ficar triste quando perceber um dia, já avô, que seus filhos gostam muito mais dos seus próprios filhos do que dele, o que é natural. E isso não é bom nem ruim, nem justo nem injusto: apenas é.

Tem hora pra tudo na vida, inclusive - e principalmente - para mãe. Dê um tempo: ninguém suporta ser tão fundamental à felicidade do outro, como as mães costumam deixar claro. É verdade, mas nem todas as verdades precisam ser ditas.

terça-feira, 20 de julho de 2010

UM QUINTAL - Danuza Leão


Quando uma pessoa começa a melhorar de vida, pensa logo em comprar uma boa casa.
E o que é uma boa casa? É preciso um jardim e uma piscina, imaginam os pais.
Eles querem para as crianças uma infância saudável, com confortos que nunca tiveram,
mas não pensam no principal: um quintal.

Um quintal não precisa ser grande, e o chão deve ser de terra batida. Nele deve haver
algumas árvores que não pareçam ter sido plantadas, mas sempre existido. Um abacateiro e uma goiabeira, de goiaba vermelha, são fundamentais.

No fundo, um galinheiro tosco, com uma porta quebrada, para que as três ou quatro galinhas possam correr quando alguém quiser pegá-las.

Nenhum computador levará uma criança ao deslumbramento que ela terá ao encontrar um ovo e segurá-lo, ainda quentinho. É o mistério da vida nas mãos dela, mais absoluto e mais simples do que qualquer livro de filosofia.

Um dia, a cozinheira avisa que vai matar uma galinha para o molho pardo. Os meninos pedem para ver a cena trágica; a mãe não quer, mas a empregada, acostumada, com o facão na mão, facilita. Se a galinha tiver dentro da barriga aquele monte de ovinhos, aí a lição de morte – e de vida – será ainda mais completa. E mais lições serão aprendidas quando alguém sugerir fazer uma peteca com as penas mais duras e algumas palhas de milho. Mas será que alguém sabe do que estou falando?

Voltando: esse quintal deve ser meio abandonado, mas muito limpo; duas vezes por dia a empregada, cantando bem alto, dá uma varrida. É importante também que haja um tanque para lavar o pé de alguma criança quando ela pisar descalça numa porcaria, e um varal com pregadores de roupa de madeira. Nesse lugar, não vai ter horta nem pomar organizado.

Em compensação, é bom que exista do outro lado do muro uma enorme mangueira para que se possa praticar o melhor crime do mundo: roubar as frutas do vizinho. Nos fundos de um quintal, deve haver também uma touceira de bananeiras ou bambus e, claro, um adulto dizendo sempre para tomar cuidado, pois ali pode ter uma cobra. Não há infância que se preze sem medo de cobra.

Quando as goiabas começam a crescer, fica todo mundo de olho até a primeira delas estar no ponto para ser arrancada e mordida ali mesmo, sem lavar. E que sensação terrível quando se vê o bicho da goiaba se mexendo.

Aí, sem que ninguém precise dizer nada, você começa a aprender que a vida é assim: ou se compra uma goiaba bonita, mas sem gosto, ou se espera com paciência ela amadurecer no pé até desfrutar o supremo prazer de dar aquela dentada – com direito a bicho e tudo.

Mas o tempo voa. De repente você se sente só, abre o caderno de telefones e percebe sua pouca afinidade com os nomes que estão lá, que tem vivido uma vida que não tem nada a ver e começa a procurar um sentido para as coisas.

Não encontra resposta, claro, mas um dia está no trânsito, vê um terreno baldio, se lembra daquele quintal no qual não pensa há anos e percebe que essa é a lembrança mais importante e mais feliz de sua vida. E passa a olhar o mundo com a superioridade de quem tem um tesouro guardado dentro do peito, mas ninguém sabe.


Danuza Leão é cronista e autora de Na Sala com Danuza 2 (ARX) e Quase Tudo (Cia. das Letras)

terça-feira, 8 de junho de 2010

FELICIDADE PEGA - Danuza Leão


FÁCIL não é, mas existem maneiras de procurar a felicidade. A primeira coisa - e a mais importante - é tentar só ter como amigos gente com a vocação da felicidade. É claro que às vezes eles passam por problemas, e devemos ser solidários nesses momentos. Mas existem pessoas que nascem de baixo-astral, sempre se queixando de tudo, só falando de
problemas e tristezas. Se você conviver muito com pessoas assim, pode saber que vai ficar mal. Aliás, gente assim só gosta de se dar com pessoas como elas; quem, nascido com o DNA lá em baixo, vai suportar ser amiga de quem é feliz, otimista, que vive rindo e achando a vida boa?

E não falo só de amigos: se o seu tintureiro se queixa o tempo todo da vida, o professor de ginástica só conta desgraças, a faxineira, as doenças dela e da família inteira, troque, mesmo com dó e piedade. Você tem que se defender, e uma das maneiras é se afastar, fugir, não chegar nem perto.

Eu tive uma empregada que era excelente, e apesar de só se queixar e me contar histórias trágicas (e antigas) -como morreu a avó há 50 anos, a sobrinha que tinha um filho que estava preso, a irmã que pesava 110 quilos e era diabética (tudo com riqueza de detalhes)-,fiquei com ela durante anos, já que era uma ótima profissional. Mas um dia não deu mais. Fiz das tripas coração e a demiti, com todas as vantagens da lei e muitas outras, para me livrar da culpa. Mas fiquei pensando: será que ela vai encontrar outro emprego? E se não encontrasse, a culpa seria toda minha, que deveria ter sido mais paciente e tolerante, sabendo que a vida dela não era fácil etc. etc. Mas sabe aquele dia em que não dá mais?

Pois não deu; assumir minha culpa não foi fácil, mas o que era para ser feito foi feito.
Aí veio uma outra, que não deu muito pé, e antes que laços de amizade se fizessem, dispensei. E aí veio a terceira, e minha vida mudou. Em primeiro lugar, ela é uma pessoa de altíssimo astral. Bem casada,feliz com o marido, e com um sorriso -quando não uma gargalhada- o tempo todo.

Quando ela veio pela primeira vez conversar comigo, me chamou logo de Danuza, não de dona Danuza. Como desde que me entendo por gente as empregadas chamam as patroas de dona, achei um pouco estranho, mas não tive nenhuma condição de pedir que ela me chamasse de dona. Afinal, isso não tem nada a ver comigo.

E assim fomos indo: Danuza pra cá, Vanúzia (é o nome dela) pra lá, e a vida correndo não só bem, como cada vez melhor. Ela me elogia, diz que o cabelo novo ficou ótimo, e me confessou que adora Clodovil, Agnaldo Timóteo e não perde um show de Fagner, sua grande paixão. Tudo isso me faz rir, e de repente percebi que estava rindo o dia inteiro.

Ontem ela estava na área passando roupa, e de repente ouvi um som estranho. Fui ver e era ela, com o ferro na mão, cantando; cantando alto uma música que nunca ouvi, provavelmente do repertório de Alcione, e quando cheguei à área ela me abriu um grande sorriso e perguntou "quer um chazinho gelado? Você quase não toma água, e água faz bem, vou pegar um copinho para você". Largou o ferro e me trouxe um chá bem gelado, e eu vi o quanto eu era feliz de ter uma pessoa assim perto de mim. Uma empregada que canta e que na hora de ir embora me manda um beijo; tem coisa melhor?

Vanúzia vai levar um susto quando ler esta coluna; é capaz até de mandar emoldurar, mas ela merece, pela felicidade que me dá.

E descobri que felicidade e tristeza
são tão contagiantes quanto o sarampo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

ATÉ ONDE COMPREENDER ??? DANUZA LEÃO


VAI QUERER entender as pessoas; aquela amiga, por exemplo, que você adora e que um dia escolheu o pior homem que existia na cidade - talvez no planeta - para ter um caso.


Fisicamente, nem feio ele era: apenas banal. Banal a ponto de ser ignorado se chegasse na praia de terno e gravata ou entrasse numa agência de banco de sunga. Charme, zero; inteligência, três; cultura - bem, passemos. Ah, mas ele era simpático: não, não era. Ah, mas as pessoas gostavam dele: não, ninguém gostava dele. Ah, mas ele era um doce com os filhos dela: não, era uma peste. Ah, mas ele fazia uma salada como nenhum chef do mundo: não, não fazia. Ah, mas ele lavava uma xícara como ninguém: não, não lavava. O caso era simples: ele a fazia feliz, e conseguiu uma proeza: que os amigos dela, os irmãos, os filhos, o ex-marido, a empregada, e mais quem estivesse por perto não gostassem dele. Mas conseguiu, sem nenhum esforço, que ela largasse o mundo por ele. Mulher é assim: acha que só possui um bem na vida, o homem que ama, e quando isso acontece, deixa tudo por ele e se sente muito feliz - enquanto dura.


O mundo foi girando, e os amigos se afastando. Ninguém conseguia conviver com o casal, sobretudo depois de saber de algumas cenas deprimentes que aconteceram entre os dois; e souberam por ela, que na hora do sufoco pedia socorro e contava tudo. O socorro era dado, claro, e a antipatia por ele só fazia crescer, claro.


Os amigos esperaram - afinal, é para isso que eles existem -, mas tem uma hora que cansa. E eles cansaram. Cansaram mas deram apoio - à distância -, até o fim; afinal o fim ia mesmo chegar, era só ter paciência, e um dia ela se lembraria do episódio como de um pesadelo, como costuma acontecer. Mas o que poderia ter sido resolvido em um mês durou dois anos.


Quando acabou, todos - os amigos, a família, os companheiros de trabalho - deixaram de falar no nome dele, como se ele nunca tivesse existido.


Outros homens cruzaram pela vida dela - nada de muito retumbante, mas tudo bem - e o tempo continuou passando.


Mas eis que um dia - um uisquinho aqui, outro uisquinho ali - vem o assunto, aquele. E ela acabou dizendo a frase que quase todas as mulheres já disseram um dia: eu devia estar louca; mas logo em seguida tentou desculpá-lo (e a si mesma), dizendo mas ele teve uma infância complicada, com uma mãe repressora e um pai ausente.


Uma das amigas presentes, que costumava dizer o que pensava, respirou fundo e, mesmo tentando ficar calma, desabafou: Não me peça para entender gente que depois dos 30, com aluguel para pagar e uma vida inteira para viver, fica falando da infância, do pai e da mãe, e o pior: ainda encontra gente para ouvir e entender. Isso feito, tomou o resto do uísque de um gole só, e completou dizendo que esse tal de dr. Freud às vezes é um atraso de vida.


Segundo ele, todos os pecados serão compreendidos, às vezes até perdoados, e as prisões deveriam ser implodidas pois todos os criminosos têm excelentes justificativas para roubar e matar.


Grande filósofa, essa amiga; se existissem muitas mais iguais a ela, o mundo seria bem, mas bem mais feliz.